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COMEÇAMOS A DÉCADA DO VOLUNTARIADO

 

O ano foi positivo como exemplo para o futuro.

Esperamos que todos venham a fazer a sua parte

 

Chegamos ao fim do Ano Internacional do Voluntário com uma importante conquista a comemorar. O Brasil está demonstrando a sua vocação social. Em todos os cantos do país proliferam projetos que têm como alicerce a doação de tempo e talento de colaboradores anônimos. Profissionais liberais, executivos, empresários, gente simples do povo, representantes de todos os estratos sociais estão sensibilizados para o fato de que temos de contribuir na luta pela cidadania. Um contingente de milhões de brasileiros trabalhando pela coletividade.

Pesquisa do Datafolha realizada em setembro em 127 municípios detectou que 83% dos brasileiros já consideram o trabalho voluntário muito importante para o país. É uma vitória fantástica. Percebemos que podemos contribuir para a transformação de nossa realidade usando como combustível o capital humano e a solidariedade. Descobrimos mais. O trabalho voluntário deixou de ser mera benemerência para se situar no campo das ações efetivas de resgate social. Passou a ocupar papel estratégico  na luta contra a desigualdade que nos afligem.

A tarefa que se apresenta, entretanto, é gigantesca. Os indicadores sociais que nos rondam são, no mínimo, perturbadores. Numa lista de 162 países, o Braisl detém a quarta pior distribuição de renda do mundo, segundo informa o relatório recente da Organização das Nações Unidas ( ONU ). Ocupamos, de acordo com o documento, a 69ª colocação no ranking do índice de desenvolvimento humano (IDH). Esse desequilíbrio estrutural joga no fosso da indigência milhões de brasileiros. Estamos destruindo nosso tecido social numa proporção inaceitável para um mundo que já alcançou padrões extraordinários de desenvolvimento tecnológico e geração de riquezas.

Não temos a pretensão de imaginar que os voluntários sozinhos serão capazes de pôr fim a essas indigestas estatísticas. O país deve passar por uma revisão de seu modelos de distribuição de renda e investir pesadamente em educação e saúde se quiser alcançar a tão sonhada justiça social. Não há dúvida quanto a isso.

Mas essa constatação não nos deve levar ao imobilismo.O voluntariado é o território da ação  e está abrindo todos os dias oportunidades valiosas para milhões de pessoas fadadas à exclusão. Não podemos mais aguardar inertes que o Estado cumpra sua missão de promover o bem estar coletivo. A escassez de recursos públicos e as distorções do sistema não recomendam tal atitude. Temos de encarar os desafios postos na arena e fazer nossa parte para transformar a realidade que nos cerca.

Após a jornada do Ano Internacional do Voluntário, a sociedade parece compartilhar essa percepção. E está aderindo vigorosamente à causa. Se examinarmos os dados do Centro de Voluntariado de São Paulo, o maior do país, encontraremos um repertório de boas surpresas. O número de ligações recebidas pela entidade simplesmente dobrou em relação a 2000. O total de pessoas que participam das palestras promovidas pelo centro também cresceu. Neste ano foram 15.830, contabilizados apenas os 10 primeiros meses do ano. A causa voluntária está se espalhando como um vírus do bem. E a legião de adeptos que se deixaram contaminar pelo espírito da solidariedade está protagonizando uma revolução. Estamos convencidos de que apenas lançamos uma semente. Esperamos que este tenha sido o primeiro ano da década do voluntariado no Brasil.

Cabe a todos nós agora dar prosseguimento à causa, conquistar colaboradores, qualificar lideranças, estimular e fortalecer os projetos positivos que estão mudando para melhor o rumo de milhares de vidas no país. É uma tarefa para o conjunto da sociedade. Faça sua parte.

 

 

Milu Vilela  é presidente do Comitê Brasileiro para o  Ano Internacional do Voluntário

Extraído de Veja Especial ( editora Abril ) -dezembro 2001 - página 81 .